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Sociedade do cansaço

Respire, não… assim no automático as coisas não vão funcionar. Tente novamente, respire… isso, agora vamos conversar sobre cansaço.

Quantas vezes nessa semana você percebeu ter pensamentos, tais como “preciso de férias”, “hoje foi tenso”, “preciso descansar mais”, “não posso continuar nesse ritmo” ?

Pensamentos que nos ocorrem com frequência maior ou menor, mas que dificilmente paramos para analisar suas causas e origens. Não basta apenas mergulhar dentro de si, é preciso olhar ao redor e entender os fatores que nos levam a descarregar as energias e impossibilitam a sua recarga.

Na busca desenfreada pela superação, pelo cumprimento de metas, pela comparação excessiva, pelo consumo desenfreado de informações, e dentre os outros fatores que a sociedade atual parece ignorar, nossa mente desliga. Tarde demais, agora o disjuntor caiu e precisamos voltar ao começo. E recomeçar sem consciência e reflexão, vai nos levar para o mesmo caminho.

Em um ano marcado por diversas mudanças, 2020 deixou claro, muitos estão cansados e são poucos que estão percebendo para onde isso vai levar. Em seu livro “Sociedade do cansaço”, o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han expõe sobre o tema, e deixa claro, estamos em uma época de excesso de positividade, em uma época marcada pela sociedade do desempenho, marcada por um modelo patológico onde as principais doenças são infartos, burnout, hiperatividade, etc..

Como qualquer problema, primeiro precisamos reconhece-lo para depois entender as suas causas, e posteriormente trazer luz para novas ideias e soluções.

A transição

Sociedade disciplinar x Sociedade de desempenho

Segundo Han, o século XX foi marcado por um modelo de sociedade disciplinar, onde era necessário a obediência, o medo, o controle e a proibição. O autor compara esse modelo ao sistema imunológico de ataque e defesa, caracterizado principalmente por doenças infecciosas, onde o estranho é eliminado pela sua alteridade.

Para Han, vivemos em um modelo de sociedade do desempenho, em uma época pobre de negatividades. No lugar do medo, da obediência e do controle, entram projetos, iniciativas e motivação. Na comparação com o sistema imunológico, o sistema atual sofre de obesidade, seja de informações, na comunicação ou nos sistemas de produção, e não existe imunorreação para a gordura e, consequentemente, não existe um fator externo que leve a formação de anticorpos.

Comparar as sociedades em séculos diferentes utilizando como referência o sistema imunológico, em um primeiro momento soa estranho, mas ao olhar suas nuances percebemos que vai um pouco além de uma simples comparação. É ver o micro se revelar no macro, é entender que muitas das respostas para o que sofremos estão de alguma forma escondidas em nossa própria natureza.

Autoexploração

“… a partir de um determinado nível de produtividade, a negatividade da proibição tem um efeito de bloqueio, impedindo um maior crescimento. A positividade do poder é bem mais eficiente que a negatividade do dever.”

Não é possível falar sobre cansaço, sem avaliar as mudanças no mercado de trabalho, onde estamos passando por transições de modelos mais rígidos, marcados por comando e controle, hierarquias e regras bem definidas, onde a mudança existia, porém em uma velocidade bem menor, para um modelo onde as mudanças são constantes e cada vez mais rápidas, e para se sobressair nessa competição, ser produtivo é fundamental.

Logo percebemos que todos essas regras, proibições e burocracias estavam nos impedindo de evoluir e fazer mais, foi aí que começos ver as organizações se transformando, dando valor a autonomia, maior flexibilidade para decisões e pressão por desempenho.

O homem não é mais coagido e forçado a trabalhar, porém a pressão por desempenho e a liberdade de escolha fazem com que torne-se senhor de si mesmo, muitas vezes levando ao excesso de trabalho e uma auto-exploração. A falta de negatividade e o excesso de positividade transformam o homem em uma máquina de desempenho autista, pois assim como um computador passamos a aceitar todo e qualquer input. Para nós é importante a negatividade do não fazer, a hiperatividade é uma forma extremamente passiva de fazer.

Olhar contemplativo

Estamos perdendo a habilidade do olhar contemplativo, de apreciar os pequenos detalhes, de estarmos confortável com o tédio. Acredito que para muitos, o ano de 2020 foi um exemplo claro, onde fomos forçados a conviver com o sistema imunológico de ataque e defesa, não só em relação ao vírus, mas também no convívio com outras pessoas.

Forçados a nos afastar, forçados a parar ou reduzir o ritmo, e isso fez com que muitos tivessem tempo de sobra. Acostumados com a pressão por desempenho e com a produtividade, logo achamos uma desculpa para fazer mais coisas nesse tempo que sobrou, e quantas não foram as lives? quantos não foram os cursos?

O vazio nos incomoda, a pressão interna por ser cada vez melhor, por fazer cada vez mais, nos impede de sermos quem gostaríamos de ser, nos impede de fazer o que gostaríamos de fazer.

“Por falta de repouso, nossa civilização caminha para uma nova barbárie. Em nenhuma outra época os ativos, isto é os inquietos, valeram tanto. Assim, pertence às correções necessárias a serem tomadas quanto ao caráter da humanidade fortalecer em grande medida o elemento contemplativo.”

Han cita  Nietzsche, e comenta que o filósofo alemão propõe a revitalização da vida contemplativa, e isso não significa aceitarmos tudo, mas sim oferecer uma resistência a todo e qualquer estímulo opressivo ou intrusivo. É saber dizer não.

“Aprender a ver significa “habituar o olho ao descanso, à paciência, ao deixar-aproximar-se-de-si”, isto é, capacitar o olho a uma atenção profunda e contemplativa, a um olhar demorado e lento.”

Recarregando as baterias

A minha reflexão, até o momento, faz-me acreditar que é preciso reaprender descansar, desligar dos excessos, dar tempo ao tempo e entender que assim como o corpo precisa de treino para se fortalecer, nossa mente também precisa de treino para recarregar.

Ser melhor a cada dia, buscar por novos desafios, conquistar nossos sonhos e objetivos são extremamente importantes, porém assim como alguém que deseja completar uma maratona, não podemos percorrer os 42 km sem uma base sólida de treinos e evolução gradual.

Entender e respeitar o seu ritmo, evitar comparações, ponderar todos os aspectos que te completam como ser humano, ter sonhos e objetivos para o seu futuro, são alguns pontos que alinhado ao descanso adequado vão nos permitir ir mais longe.

Publicado emLivros